Londres – Homens que participam da maior comunidade incel online do mundo mencionam estupros a cada meia hora em suas publicações, revela um estudo do Center for Countering Digital Hate (CCDH) sobre a chamada “Incelosfera” – e o Brasil está entre os 10 países que mais geram tráfego para o fórum. 

O termo “incel” é formado pelas primeiras sílabas de involuntary celibates (celibatários involuntários) e se refere a um grupo formado majoritariamente por homens heterossexuais brancos que se sentem rejeitados sexualmente pelas mulheres.

A base misógina dos incels se reflete nas publicações violentas no fórum analisado pelos pesquisadores, com um aumento de 59% nas menções a ataques em massa nos últimos 12 meses. 

Estudo mostra que ‘influencers’ passam mais de 10h em fórum incel

Com 17 mil membros e 2,6 milhões de visitas mensais, o fórum pesquisado pelo CCDH foi considerado o mais influente e o maior da comunidade incel. O instituto optou por não revelar o nome do fórum para não dar visibilidade ao conteúdo nocivo. 

A cautela tem motivo. Em agosto de 2021, Jake Davidson, um operador de guindastes de 23 anos, matou cinco pessoas em Plymouth, na Inglaterra, inspirado no movimento intel. 

A presença dos incels fora do mundo virtual começou a ser notada em 2014, quando Elliot Rodger, de 22 anos, assassinou seis pessoas e feriu outras 14 em Isla Vista, Califórnia, antes de se matar.

Antes do ataque, ele postou um longo manifesto e vários vídeos no YouTube detalhando sua visão de mundo misógina e declarando sua participação na comunidade nascente. 

“Em todo o mundo, as organizações policiais e de inteligência estão cientes da crescente questão das ameaças incel, considerando-a uma prioridade”, destacam os pesquisadores.

O Centro Nacional de Avaliação de Ameaças do Serviço Secreto (NTAC) disse, em março deste ano, que os incels são uma ameaça crescente nos EUA.

Já o Comitê de Inteligência e Segurança do Reino Unido foi avisado pelo MI5 de que os incels estão estabelecendo relações perigosas com outros movimentos conspiratórios e violentos, segundo o CCDH. 

Brasil entre os 10 maiores geradores de tráfego

A análise de 1,2 milhão de publicações feita ao longo de 18 meses pelo CCDH descobriu que o tom da comunidade online é definido por 406 “usuários avançados” que produzem 74,6% de todas as postagens do fórum, segundo dos pesquisadores.

Alguns desses “influencers” passam mais de 10 horas por dia no espaço incel na web. Adolescentes de até 15 anos também foram identificados entre os membros que disseminam mensagens de ódio e extremismo.

Estatísticas de tráfego e análise de dados feita pelos pesquisadores demonstraram que o fórum é global por natureza, apesar de suas raízes americanas.

Quase metade do tráfego da web para o fórum vem dos EUA, com os americanos respondendo por 43,8% do tráfego do site entre abril e junho de 2022, de acordo com dados da empresa de monitoramento Similarweb. Isso equivale a uma média de 1.060.498 visitas mensais. 

O Reino Unido foi responsável por 7,5% do tráfego do site no mesmo período, com uma média de 182.159 visitas por mês.

Apesar do fórum ser em inglês, 40% do tráfego da web vem de países onde o inglês não é o idioma oficial, como o Brasil, listado em décimo lugar.

Alguns dos países mais bem colocados em termos de tráfego foram a Polônia, que ficou em terceiro lugar com 4,2% do tráfego, o Equador, que ficou em quarto lugar com 3,6% do tráfego, e as Filipinas, que ficou em quinto lugar com 3,6%.

Incel gráfico Brasil

Discurso incel perigoso para a sociedade, mostra estudo

“A análise de seu discurso mostra que esse grupo representa um perigo claro e presente para as mulheres, outros homens jovens e revela uma ameaça emergente para nossos filhos”, diz o CEO do centro, Imran Ahmed.

Entre as principais descobertas, o estudo identificou que 9 em cada 10 (89%) postagens que mencionaram estupros expressavam apoio à violência sexual contra mulheres.

Na mesma linha, publicações sobre pedofilia tinham 53% de expressões favoráveis, sejam incentivando ou justificando a a exploração sexual infantil. Em janeiro de 2022, as regras do fórum mudaram para permitir a sexualização de menores de 16 anos.

Além disso, uma em cada cinco postagens do fórum apresenta linguagem misógina, racista, antissemita ou anti-LGBTQ+.

Os membros do fórum incel analisado também criaram tópicos para falar sobre automutilação, ansiedade de imagem corporal e desemprego crônico.

As regras do fórum incel foram alteradas em 5 de março de 2022 para acomodar a pedofilia. Elas mudaram de “não sexualizar menores de nenhuma maneira, forma ou forma” para “não sexualizar menores pré-púberes de nenhuma maneira, forma ou forma”.

O estudo identificou ainda que postagens mencionando assassinatos em massa incel aumentaram 59% entre 2021 e 2022.

A análise das ‘tags’ aplicadas aos tópicos de discussão no fórum mostra que mais de um terço são marcados com tópicos que promovem expressões de raiva ou desespero sobre o status incel dos membros. Apenas 5,8% são marcados com tópicos que promovem uma visão mais otimista.

 A idade é outra preocupação. Os pesquisadores descobriram membros do fórum a partir dos quinze anos expressando opiniões violentas e extremistas. Dentre eles estão três usuários com idades entre 15 e 17 anos que figuram entre os membros mais ativos do fórum. 

“Eles conhecem o seu mercado. Eles procuram aumentar seus números. As crianças são bem recebidas na plataforma. Encontramos menores auto-identificados discutindo conspirações antissemitas, o desejo de cometer assassinatos em massa e até mesmo como escapar da polícia”, afirma Ahmed.

“Adam”, de 17, conectado por 10 horas por dia, postou sobre “propaganda judaica”. “Ben”, de 15, discutiu o desejo de cometer um tiroteio em massa em posts. “Carl”, estudante, discutiu como evitar o encaminhamento para o programa anti-extremismo do Reino Unido. 

Inação das redes sociais amplifica discurso incel

O CCDH denuncia que as principais plataformas de mídia social, como YouTube e Google, estão favorecendo a repercussão de conteúdos incels para fora da bolha deles.

“Encontramos um problema específico no YouTube, em nossa experiência uma plataforma que tem sido particularmente ruim em aplicar as normas da comunidade e demora a responder a relatos de problemas lá.”

Por isso, os pesquisadores querem que os perfis identificados por eles sejam removidos do YouTube. Também pedem que o Google remova sites incels de seus resultados de pesquisa para termos como “imagem corporal”, “suicídio” e “desemprego”.

Já o Twitter é instado a excluir a conta oficial do maior fórum incel.

“Incels são perigosos para si mesmos e para os outros”, diz o diretor Imran Ahmed.

“Eles são um exemplo altamente desenvolvido dos tipos de comunidades digitais modernas, baseadas em ideologias malignas, pseudociência, desinformação e ódio que proliferam e são permitidos por negócios online não regulamentados para causar sérios danos às nossas sociedades.”

“Não temos dúvidas, após a realização deste estudo, de que essa comunidade de homens raivosos, beligerantes e sem remorso são perigosos uns para os outros, com dinâmicas sociais malignas que encorajam uns aos outros a extremos cada vez piores”, destaca Ahmed.

Acesse o estudo completo aqui.

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