Londres –  No mesmo fim de semana em que a COP27 terminava no Egito com acordos criticados e condenação do greenwashing, a Copa do Mundo do Catar começava com acusações de sportswashing disputando atenção com o futebol e vitimando a reputação de algumas celebridades, como o ex-ícone gay e atual ícone do sportwashing David Beckham.

O ex-jogador de futebol virou a ‘Geni’ do universo dos que ganham dinheiro para promover a Copa da Fifa e as maravilhas do país repressor, fazendo vista grossa às denúncias de maus tratos a operários que construíram os estádios e despertando a ira da comunidade gay e de defensores dos direitos humanos. 

Nesta semana, a polêmica esquentou ainda mais depois de um artigo de opinião no jornal Independent de autoria do jornalista Matthew Todd, ex-editor da revista gay Attitude, cuja capa com Beckham há alguns anos o tornou exemplo a ser seguido. 

Torcedores perdoam

Os dois grandes eventos globais realizados em novembro sofrem do mesmo mal: foram designados para acontecer em países criticados por violações dos direitos humanos e intolerância com pessoas LGBTQIA+. 

Mas as críticas não estão dando em nada para as nações. No máximo, alguma publicidade negativa na mídia internacional, enquanto os líderes aproveitam para realizar encontros com os convidados, incluindo presidentes e primeiros-ministros que publicamente defendem os direitos humanos mas não se importam em aproveitar a hospitalidade dos anfitriões. 

A relação de torcedores com clubes ou seleções não é racional. Um estudo publicado em maio no Journal of Sports Marketing and Sponsorship, de autoria das pesquisadoras Sungkyung Kim e Argyro Elisavet Manoli, demonstrou que, para eles, a forte conexão com um time ou seleção leva a evitar críticas.

Elas afirmam que atos socialmente responsáveis − ou a falta deles − não são capazes de impactar a paixão; simplesmente não fazem efeito. Por isso, seleções também são perdoadas por desistirem de usar braçadeiras com arco-íris. 

Beckham e o sportswashing no Catar

Já para indivíduos como David Beckham, ex-astro da seleção inglesa, casado com a ex-Spice Girl Victoria e uma das maiores celebridades das redes sociais em todo o mundo, é outra coisa.

O contrato de £ 15 milhões anuais durante 10 anos assinado com o reino é de ’embaixador’ e envolve a promoção do país, não apenas do evento esportivo, inferindo um relacionamento mais profundo e duradouro.

Neste vídeo publicado há dois meses, o ex-jogador faz um tour pelo Catar, incentivando visitantes a conhecerem o país. Postado pelo órgão de turismo Visit Quatar, o vídeo teve os comentários desativados, talvez para minimizar ataques.

Mas por ser Beckham um atleta e a ‘estreia’ estar sendo feita no período da Copa, a associação com sportswashing foi inevitável. 

No dia da primeira partida da seleção inglesa na Copa do Mundo, o jogador ficou no centro das atenções depois de uma bravata do comediante Joe Lycett, que tem 1,3 milhão de seguidores no Twitter. 

Dias antes ele havia prometido triturar £10 milhões se até a abertura do torneio Beckham não cancelasse o contrato. Se o fizesse, o dinheiro iria para instituições de caridade.

No meio do dia, TVs e redes sociais veicularam com alguma desconfiança imagens da suposta queima do dinheiro, pouco antes da bola começar a rolar no campo. 

Mais tarde, Lycett admitiu que o que saiu da máquina não foi dinheiro triturado, e que ele não seria irresponsável queimando recursos que poderiam ajudar outras pessoas. Mas triturou um exemplar da célebre revista gay Attitude com Beckham na capa.

A editora endossou o protesto e postou uma nota dura contra o atleta, dizendo que defender direitos de gays e também de mulheres e outros grupos não pode ser ‘apenas da boca para fora’.

A Attitude removeu sua famosa capa de David Beckham de seus escritórios e criticou o jogador de futebol por ‘de fechar os olhos para a corrupção’.

No artigo do Independent, Matthew Todd, que se diz responsável por ter ajudado o atleta a se tornar um ícone gay, condenou a associação de Beckham com o Catar, mas apontou hipocrisia entre os que recriminam más práticas e se associam a quem as apoia, defendendo uma discussão mais ampla que inclua também as atitudes em relação às mudanças climáticas.

E provocou: ‘Beckham é hipócrita. Mas todos somos”. 

Beckham ‘Sir’?

Beckham pode não ter aberto mão do milhões, mas se arrisca a perder algo que o dinheiro não pode comprar: uma condecoração real.

No funeral da rainha Elizabeth, ele tinha sido aclamado por ficar 13 horas na fila, supostamente anônimo, para se despedir da monarca que o tinha condecorado.

Rumores eram de que ele teria feito isso de olho em um futuro título de Cavaleiro da Ordem Britânica. As condecorações reais têm sido frequentemente alvo de controvérsia, pois alguns nomes são fortemente questionados.

E o rei Charles enfrentou ano passado uma tormenta quando seu principal assessor se viu envolvido em denúncias de troca de doações por condecorações.

Com esse histórico, a assessoria do Palácio de Buckingham, se tiver juízo, vai aconselhar o rei a não tornar David Beckham um ‘Sir’ por causa das recriminações de ajuda ao sportswashing do Catar.

Na véspera da abertura da Copa, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, chocou ao fazer um discurso inflamado chamando de hipócritas as nações que criticavam o Catar, tentando dissociar o país da acusação de usar o torneio para melhorar sua imagem – o sportswashing. 

O cantor pop Robbie Williams, contratado para se apresentar no Catar, fez o mesmo, dizendo que se não tocasse em países que não respeitam direitos humanos não poderia cantar nem na própria cozinha.

Há os que sugerem que eventos globais ajudam a mudar os países. Um argumento frágil depois da proibição de álcool nos estádios dias antes da abertura da Copa. Ou da volta atrás da seleção inglesa, que prometeu usar braçadeiras com o arco-íris e desistiu.

E de notícias como a do jornalista brasileiro interpelado pela foto da bandeira de Pernambuco ostentando um arco-íris. 

A tese de que os países melhoram também é questionável diante da situação dos prisioneiros do Egito, que não mudou com a COP27.

O ativista Alaa Abdel Fatah endureceu a greve de fome e poderia morrer durante a cúpula, se o governo não o tivesse alimentado à força.

Os líderes que disseram “ter levantado o tema” nas conversas com o presidente Sisi durante a COP27 se foram. O site das Nações Unidas exibe um duro manifesto contra a prisão. Mas Abdel Fattah segue preso, assim como os outros opositores ao regime.

Na Copa do Mundo, a tendência é de que o Catar também não sofra consequências, exceto pequenas tristezas, como a ausência (por enquanto) do príncipe William.

Presidente da Football Association e frequentador de estádios, o herdeiro da coroa não foi ainda ao Catar, mas se a seleção inglesa chegar à final (a confiança está alta depois das primeiras vitórias) pode ser que a decisão seja revista.

O temido boicote de torcedores ou de espectadores igualmente não aconteceu.

No Reino Unido, alguns pubs deixaram de transmitir os jogos, em protesto contra o país que proibiu bebidas alcóolicas nos estádios às vésperas da abertura.

Mas a quem isso de fato importa, a não ser aos frequentadores do pub, que terão que ver os jogos em casa e não na animação de seu bar preferido?

Mesmo que a tese de que nações podem melhorar a partir dos grandes eventos se aplicasse na prática, ainda assim empresas e celebridades que se aproximam dessa fogueira correm risco de se queimar.

Clubes e seleções, pela paixão que despertam, parecem estar mais protegidos, como apontou o estudo das pesquisadoras.

Já marcas e pessoas podem se arrepender do dinheiro ou da visibilidade advinda de acordos que à primeira vista parecem vantajosos  mas acabam sendo relacionados a tentativas de sportswashing, greenwashing e tantas outras lavagens de imagem por parte de quem os contrata. 

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