A Gannett, maior editora de jornais dos EUA, dona de uma vasta rede que inclui o renomado USA Today, passa por uma grande crise financeira e de imagem que pode impactar os negócios da empresa.

A companhia anunciou cortes de custos generalizados para todas as suas redações. O maior impacto para os funcionários será a suspensão das contribuições ao fundo de pensão, um benefício que as empresas não são obrigadas a pagar.

Somado a isso, um estudo divulgado por seis sindicatos de veículos da Gannett mostrou a disparidade salarial entre jornalistas brancos e negros, e homens e mulheres.

Fusão deu início à crise de editora de jornais

Dona de mais de 200 jornais impressos nos EUA, a Gannett tem enfrentado dificuldades nos últimos anos. O relatório financeiro mais recente da editora mostra uma perda de US$ 54 milhões no segundo trimestre de 2022.

A empresa também lida com uma dívida de mais de US$ 1 bilhão adquirida após sua fusão com a GateHouse, em 2019.

A crise não parece ser geral no mercado americano. Um relatório do Pew Research Center publicado em 13 de outubro constatou que em 2021, 11% dos jornais de alta circulação – aqueles com uma circulação média de domingo de 50 mil exemplares ou mais – sofreram demissões, em comparação com três vezes o mesmo que no ano anterior (33%), quando a pandemia do coronavírus abalou a economia do país.

O número de 2021 é o menor percentual de grandes jornais com demissões desde que o Centro começou a acompanhar essa tendência em 2017. O resultado foi atribuído ao aquecimento da economia, mas o Gannett não surfou nessa onda. 

O CEO da Gannett, Mike Reed, anunciou os cortes operacionais que a empresa está adotando em e-mail enviado a todos os funcionários no dia 12 de outubro.

Além da suspensão temporária do pagamento do fundo de pensão, a editora exige que os colaboradores tirem uma semana de licença não remunerada em dezembro e anunciou indenização para demissões voluntárias.

“Estes são tempos verdadeiramente desafiadores”, escreveu Reed no comunicado. “A empresa continua enfrentando ventos contrários e incertezas devido à deterioração do ambiente macroeconômico, que levou a equipe executiva a tomar mais medidas imediatas.”

A Gannett também irá congelar as contratações, exceto para cargos cruciais. Reed afirmou que as mudanças são necessárias para garantir o sucesso a longo prazo da editora:

“Para sustentar a missão de nossa empresa de capacitar as comunidades a prosperar, sustentar o jornalismo local e apoiar pequenas empresas com soluções digitais, precisamos garantir que nosso balanço continue forte.”

A medida acontece dois meses depois da Gannett demitir 400 funcionários e e interromper a contratação de mais 400. Desde a fusão, em 2019, a empresa vem reduzindo consideravelmente sua equipe, segundo o Poynter.

Naquele ano, as duas empresas tinham cerca de 25 mil funcionários. No final de 2021, esse número caiu para 13,8 mil nos EUA e 2,5 mil no exterior.

Muitos desses cortes, segundo o Poynter, vieram de demissões e aquisições. Mas outros vieram de mudanças internas. Desde 2020, a Gannett vendeu mais de 100 jornais e tem planos de vender pelo menos mais 60 de suas quase 500 publicações.

“Fomos transparentes sobre a necessidade de tomar medidas imediatas devido ao ambiente econômico incerto e desafiador”, disse Lark-Marie Anton, diretor de comunicações da Gannett, em comunicado. “Embora sejam difíceis, estamos confiantes de que essas decisões garantirão o futuro da Gannett.”

Estudo expõe desigualdade salarial em jornais da Gannett

Ao mesmo tempo, um estudo conduzido pelo sindicato NewsGuild com 200 repórteres de veículos da Gannett expôs a desigualdade salarial entre brancos e negros, e homens e mulheres.

O salário médio para jornalistas negros em seis jornais da Gannett é US$ 11,5 mil a menos que o de seus colegas brancos, de acordo com o levantamento divulgado pelo Poynter.

Na comparação das diferenças salariais raciais por idade, o estudo descobriu que jornalistas não brancos na faixa dos 20 anos tinham um salário médio de quase US$ 2 mil a mais do que seus colegas brancos.

No entanto, a lacuna fica maior quando se comparam profissionais na faixa dos 30, 40 e 50 anos. Segundo o estudo, o salário médio de jornalistas negros na faixa dos 40 anos, por exemplo, é de aproximadamente US$ 42 mil. Jornalistas brancos na faixa dos 40 anos tinham um salário médio de aproximadamente US$ 53,5 mil.

De forma semelhante, também foram identificadas desigualdades salariais de gênero. Para jornalistas homens e mulheres mais jovens, a diferença salarial não tende a passar de US$ 2 mil.

Mas entre os jornalistas na faixa dos 50 anos, o salário médio dos homens é cerca de US$ 3 mil a mais do que os das mulheres. Essa diferença cresce para mais de US$ 9 mil entre jornalistas com mais de 60 anos.

Segundo o sindicato, essas disparidades salariais fizeram com que mulheres e jornalistas não brancos abandonassem a profissionais na metade da carreira. Nos jornais pesquisados, somente 11 jornalistas negros trabalhavam a mais de 10 anos na Gannett — contra 94 profissionais brancos.

“Gannett afirma que é um farol para a diversidade no local de trabalho. Nossos números provam o contrário”, diz o sindicatos. “Se os jornalistas negros ficarem nesses jornais da Gannett, seus salários se estabilizarão. Se as jornalistas do sexo feminino ficarem, elas podem esperar receber menos do que seus colegas do sexo masculino.”

De maneira geral, as mulheres tem salários médios similares ou um pouco maiores do que os homens em alguns dos veículos pesquisados. Ainda assim, nos jornais associados ao Hudson Valley News Guild, mulheres recebiam US$ 8 mil a menos do que seus colegas homens.

Ainda segundo o levantamento da NewsGuild, cerca de 77% dos funcionários dos veículos pesquisados são brancos e 64% são homens. Os homens brancos superavam as mulheres não brancas em 5 para 1, de acordo com o estudo.

Ao Poynter, o porta-voz da editora, Lark-Marie Anton, disse que a Gannett está comprometida com “práticas de emprego equitativas” para todos os seus trabalhadores.

“É preocupante que o NewsGuild divulgue um ‘estudo’ que não leva em consideração fatores críticos de análise e usa dados seletivos para conduzir uma narrativa que tem um viés claro e levanta ainda mais questões de credibilidade e integridade”, afirmou Anton ao site.

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