Londres – O presidente da Associação de Jornalistas de Hong Kong (HKJA), Ronson Chan, foi formalmente acusado de obstrução ao trabalho da polícia no território sob o comando do governo da China menos de uma semana antes de começar a estudar por meio de uma bolsa do Instituto Reuters na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Chan foi detido após se desentender com dois policiais enquanto cobria uma reunião do comitê de proprietários de imóveis no Estádio MacPherson em Mong Kok no dia  7 de setembro.

Em audiência nesta quinta-feira (22), ele foi pagou uma fiança e recebeu autorização para viajar, sob a condição de  manter a polícia de Hong Kong atualizada sobre seu endereço e número de celular enquanto estiver na Grã-Bretanha, permanecendo sob vigilância mesmo fora do país.

Repressão a jornalistas no território da China 

A HKJA é a principal associação de jornalistas de Hong Kong e uma das poucas que resistiu ao avanço da censura que se agravou desde 2020, quando uma nova Lei de Segurança Nacional entrou em vigor para silenciar os dissidentes que discordam das políticas implantadas pela China depois que o território voltou ao seu controle.

Embora Ronson Chan não tenha sido impedido de viajar, ele relatou ter sido intimidado quando foi levado para a delegacia após o conflito com policiais, que aconteceu no dia 7 de setembro, ouvindo comentários como“vamos ver quando você vai morrer”.

Chan disse a repórteres locais que agiu dentro de seus direitos, recusando-se a cooperar com os policiais até que eles apresentassem suas identificações. 

A polícia alegou que ele se recusou a fornecer identificação e “não cooperou”.

Diante do tribunal após a decisão que o autorizou a viajar, ele disse que ficou surpreso em não ter sido impedido de viajar ao Reino Unido, o que pode ter acontecido pela repercussão internacional do indiciamento. 

O Instituto Reuters para Estudos do Jornalismo, onde ele passará seis meses participando do programa Journalist Fellowship junto com profissionais de outros países, divulgou uma nota expressando boas-vindas. 

Hong Kong: liberdade de imprensa dizimada 

A liberdade de imprensa foi praticamente extinta em Hong Kong desde que a China reassumiu o controle do território, que virou um dos piores locais do mundo para o trabalho dos jornalistas independentes. Os principais jornais fecharam ou foram fechados. 

O maior conglomerado editorial do país, o Next, encerrou as atividades depois que seu principal jornal, o Apple Daily, foi proibido de funcionar. O dono do grupo, o jornalista Jimmy Lai, foi condenado e está preso. 

Ronson Chan trabalhava no jornal StandNews, que fechou em em 2021 depois de ter a redação invadida e vários diretores presos.

Ele não foi mantido na cadeia, mas teve que ir para a delegacia prestar depoimento. Seus equipamentos eletrônicos e crachá foram confiscados. 

O clima de intimidação em Hong Kong levou a Associação de Correspondentes Estrangeiros a cancelar seu prêmio de jornalismo e direitos humanos em abril deste ano.

Organizações internacionais de liberdade de imprensa e de direitos humanos têm documentado em relatórios a situação dramática do jornalismo e dos jornalistas em Hong Kong, mas o governo da China ou a administração local não se manifestam. 

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